edição 11 - agosto/2004 - Assessoria


A artista e seu assistente

Com discrição a história registra a atuação dos assistentes dos grandes artistas. Em muitos casos, foram eles que viabilizaram o sonho que o artista teve, já que cabe a este o grave ofício de sonhar. Foi com a participação dos seus assistentes, ou discípulos, como se dizia na renascença, que grandes mestres realizaram algumas das principais obras da pintura universal, que o diga Charleston Heston.

Aos assistentes daqueles tempos remotos, até bem pouco, cabiam funções variadas e apenas algumas delas lidavam diretamente com a arte ou com o artista - mestre, como também se dizia antigamente. Cabia a eles desde a montagem dos pincéis, até o uso deles sobre a marca de carvão deixada pelo artista. Este percurso incluía o preparo da têmpera, a construção dos cavaletes, a montagem dos chasis, o acabamento do suporte e todo o ritual anterior e posterior ao trabalho desenvolvido pelo mestre.

Para concluir o projeto. do seu famoso painel "Guerra e Paz", Cândido Portinari, por exemplo, reuniu um grupo de assistentes da melhor, dos quais alguns ainda estão aí na lida cultural do país.

A convivência do artista com seus assistentes mais diletos é complicada, mesmo porque conviver no geral já é. Neste caso em especial, vai além do simples saber fazer. Quase sempre, senão sempre, o assistente está ali, atuante como tal, por que esta é sua vocação. Ele também é um artista em potencial que busca nesta convivência os ensinamentos para se exercer plenamente. Isto define, em sua esteira, uma vontade clara e a consolidação de valores estéticos e críticos. Não raro este insumo possibilita conflitos.

Estes geram diferenças que levam a conflitos, o que explica, em parte, a curta duração dessas parcerias - artista e assistente.

Nestes dias estou acompanhando o relacionamento entre dois jovens artistas.

A história começou quando a consagrada pintora Sônia Menna Barreto, tomou como assistente um jovem artista que aos poucos se impõe no mercado, com criatividade e boas perspectivas, o mineiro Luiz Martins.

Como todos sabemos, Sônia tem uma inventividade excepcional e gosta de trabalhar com a ponta dos pincéis em cenários elaborados e dignos dos sonhos mais mirabolantes. Com esse estoque infindável de imagens e uma refinada técnica na lida com a cor, tintas e pincéis, espaços, formas e volumes, ela cria universos oníricos onde tudo é possível e o futuro é uma perspectiva difusa num passado mais presente que o próprio presente. Além de uma estética figurativa que beira o hiper realismo, a obra de Sônia se traduz através de um cenário surrealista que foge da materialidade real das coisas, irreal mas pontuado de referências vivas e atuantes.

Quanto a Luiz Martins, a quem também conheço de longa data, trata-se de um jovem artista criativo e experimentalista que lida com a forma, volume e cores de maneira totalmente diversa. Percorrendo desde as instâncias mais remotas de nossa sensibilidade estética até a ousadia de formas futuristas e lançando mão de materiais reciclados em requintado acabamento, o resultado de seu trabalho diverge em forma e conteúdo daquele criado por Sônia. A tal ponto que podem se confundir com o paradoxo convergente.

Não se vislumbra nenhuma possibilidade dos dois se harmonizarem no horizonte das formas e das cores senão através das antíteses.

Nesta convivência há que se observar e esperar não apenas a agilização produtiva, mais ainda,
os inevitáveis frutos de um relacionamento raro, em circunstâncias tão especiais. São sensibilidades contrastantes se apoiando mutuamente.

Por isso acompanho atenta a convivência de uma artista consagrada com um jovem assistente que vem aí cheio de fogo, para ver onde, como, quando e no que vai dar esse mix pictórico com tantos KWa. Q.V.V.( ZÉLIO ALVES PINTO ).