|
Caros
amigos e amigas,
O texto
é um pouco longo, mas podem
acreditar que vale a pena ser lido,
principalmente por quem gosta e
acompanha a produção
artística.
Um grande
abraço,
Sônia
Menna Barreto
O
ESTADO DE S.PAULO
Terça-feira, 17 de janeiro
de 2006
ARTE INVENTADA
Lira Neto
Um artista 'genial'. E ele nem existia
Seria
um acontecimento. O japonês
Souzousareta Geijutsuka, anunciado
pela imprensa cearense como um dos
principais nomes da arte contemporânea
universal, era ansiosamente esperado
na semana passada em Fortaleza,
para abrir a exposição
Geijitsu Kakuu. Convidado especial
da curadoria do Museu de Arte Contemporânea
do Ceará, Geijutsuka mostraria
ao público cearense por que
seu trabalho é aclamado em
todo o planeta como uma obra revolucionária
que, segundo o material de divulgação
de sua eficiente assessoria de imprensa,
incorpora 'novos conceitos à
arte', como os de 'operação
em tempo real, simultaneidade, supressão
do espaço e imaterialidade'.
Os jornais locais deram amplos espaços
para a divulgação
da exposição. Um deles
chegou a publicar, no dia marcado
para a abertura do evento, uma entrevista
de página inteira com Geijutsuka.
Tudo perfeito, não fosse
um detalhe: Souzousareta Geijutsuka
não existe.
A idéia de inventar o tal
japonês que - segundo informava
um jornal de Fortaleza - 'conquistou
fama mundo afora por unir arte,
ciência e tecnologia' partiu
de um jovem artista de 23 anos,
Yuri Firmeza, paulistano radicado
na capital cearense desde a infância.
'A intenção foi mostrar
como a arte hoje em dia encontra-se
subordinada a exigências e
manipulações mercadológicas
e a modelos construídos e
legitimados pela mídia, pelas
galerias e pelos museus', explica
Firmeza.
Para tornar sua história
mais verossímil, ele conseguiu
convencer especialistas a escreverem
textos críticos sobre a obra
do fictício Geijutsuka, incluindo
aí o próprio diretor
técnico do Museu de Arte
Contemporânea do Ceará
(MAC), Ricardo Resende, 43 anos,
ex-curador do Museu de Arte Moderna
de São Paulo (MAM). 'Vivemos
uma era em que muitas outras forças,
além daquelas que o artista
naturalmente dispõe para
criar, regem o sistema da arte',
já denunciava também
Resende, de forma velada, no texto
de apresentação da
'exposição'.
Tudo foi planejado nos mínimos
detalhes. A namorada de Yuri Firmeza
se fez passar por assessora de imprensa
e abasteceu os jornais locais com
imagens de algumas das 'obras' de
Geijutsuka. Entre elas, uma série
de fotos prosaicas de um gato, que
foram publicadas na imprensa local
como sendo cenas de um 'videoarte'
do 'genial japonês'. 'Era
apenas um gatinho que vi na rua,
num bairro aqui em Fortaleza, e
fotografei com minha máquina
digital doméstica', revela
Firmeza.
Uma fotografia de uma ensolarada
praia cearense, distorcida em um
editor de imagens para parecer uma
figura abstrata, foi estampada também
pela imprensa local como um 'infográfico'
de Geijutsuka. Na legenda da ilustração,
uma frase pinçada da longa
'entrevista' que ele havia concedido,
por e-mail, ao jornal: 'Os historiadores
da arte são iguais ao público:
têm dificuldades de reagir
ao que não entendem'.
Yuri deixou algumas pistas propositais,
que não foram decodificadas
pelos jornalistas. Em japonês,
Souzousareta Geijutsuka significa
exatamente 'artista inventado'.
E o nome da exposição,
Geijitsu Kakuu, pode ser traduzido
como 'arte e ficção'.
No material de divulgação
repassado à imprensa, dizia-se
ainda que o suposto artista havia
criado a fotografia 'Shiitake',
nome do cogumelo que pode ser encontrado
em qualquer restaurante japonês,
mas que foi definida por sua 'assessoria
de imprensa' como uma 'técnica
que permite a captação
dos fenômenos invisíveis
ocorridos na atmosfera'.
No dia da abertura da anunciada
exposição, em vez
das obras revolucionárias
de Souzousareta Geijutsuka, o público
deparou-se apenas com uma série
de e-mails pregados na parede da
sala reservada ao evento pelo museu.
Nas mensagens, Yuri Firmeza e um
amigo trocavam idéias sobre
arte contemporânea e discutiam
animadamente a obra de autores como
Gilles Deleuze, Antonin Artaud e
Pierre Bordieu. Dessa troca de e-mails
é que surgira a idéia
de criar um artista imaginário.
'O que me interessa é interrogar
sobre a qualidade do que compõe
todo esse sistema de legitimação
estética: críticos,
jornais, artistas, curadores, galerias,
museus e o próprio público',
escreveu Firmeza em uma dos e-mails
ao amigo. 'Não sei como será
a receptividade em relação
ao Geijutsuka, mas acredito que
suscitará saudáveis
desconfortos', previa.
Dito e feito. Revelado o simulacro,
a reação da imprensa
cearense foi violenta. Yuri Firmeza
foi chamado de 'moleque' pelos jornais
e foi alvo de editoriais indignados.
Sobraram farpas também para
a direção do MAC por
ter 'compactuado com a farsa'. 'Em
vez de irritar-se, a imprensa está
perdendo uma ótima oportunidade
para refletir sobre as provocações
que Yuri Firmeza fez a todos nós',
avalia o diretor técnico
do museu. 'Não se tratou
de uma ferroada à mídia
local, o mesmo poderia ter ocorrido
em qualquer lugar do país.
No Brasil, somos deslumbrados pelo
que vem de fora e pelo que nos é
apresentado como algo novo e revolucionário,
é nisso que todo esse episódio
nos obriga igualmente a refletir',
analisa Resende.
'Bastaria fazer uma rápida
pesquisa no Google para que os jornalistas
descobrissem que não havia,
na internet, nenhuma menção
ao tal Geijutsuka, apresentado como
um artista famoso, com exposições
consagradoras em Tóquio,
Nova York, São Paulo e Berlim',
diz Yuri Firmeza. 'Mas eu não
quis provocar apenas a imprensa,
isso seria reduzir o alcance da
denúncia; a provocação
foi extensiva a todo o circuito
das artes em geral', insiste ele,
que mantém uma página
pessoal na internet (http://yurifirmeza.multiply.com/)
onde registra suas principais performances
- ou suas 'orgias multipoéticas',
como prefere definir. Não
se estranhe nada do que for visto
ali. Afinal, na pele de Souzousareta
Geijutsuka, na 'entrevista' à
imprensa de Fortaleza, ele já
advertira: 'Tudo está integrado
a um exercício do simulacro,
cujo objetivo é retirar os
hábitos de seu estado de
evidência'. Seja lá
o que isso possa vir a significar.
|