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edição
03 - novembro/2001
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A
FUSÃO DOS MUNDOS
O
que vou propor aqui, talvez seja
um grande desafio para o artista
- principalmente para aquele chamado
de "bicho de atelier" - que tem
a personalidade introvertida, aquele
que entende que seu trabalho termina
com a última pincelada em um quadro.
Há artistas que acham que seu trabalho
consiste em só participar da criação
e execução de uma obra e que não
devem seguir o processo até o fim
- a venda - e sim deixar esta tarefa
para mãos mais burguesas que a sua.
Esta é a função dos galeristas,
marchands. Hoje existe até a figura
do "agent" que faz o contato do
artista com as galerias. Eu era
um destes artistas. Era! Esta situação
era muito confortável para mim e
me dava tempo para aquilo que me
era mais relevante : a pintura.
Porém, a cúpula de cristal vai se
corroendo com as transformações
da sociedade e principalmente do
mercado da arte, que hoje, diga-se
de passagem, encontra-se muito mais
exigente e profissionalizado. Ao
mesmo tempo que este distanciamento
foi confortável, foi ao mesmo tempo
muito perigoso para a carreira da
artista.
Depois de dezesseis anos de contrato
de exclusividade com uma galeria
de arte, decide-me por tomar novamente
as rédeas da minha carreira e trago
aqui um pouco das situações vividas,
das angústias que experimentei por
estar entrando em um ambiente tão
diverso do meu e ao mesmo tempo
dou o meu depoimento a respeito
dos resultados positivos que esta
" troca " - mundo empresarial /
mundo do artista - vem me proporcionando.
Aprendi, ao longo do tempo, que
o artista deve tomar as rédeas de
sua carreira, mesmo que isto signifique
passar horas planejando e participando
de reuniões, sem sequer encostar
um pincel naquele quadro que espera
ansiosamente recostado no cavalete.
Sem dúvida é mais estressante, mas
o artista tem que ter participação
ativa em todo o processo e não só
na criação e execução da obra. Não
vou dizer aqui que é fácil. Muito
pelo contrário. Requer de nós, artistas,
um esforço dobrado, um aprendizado
de um novo idioma, de um novo comportamento
e de uma nova visão da arte. Isto
não quer dizer que devemos pintar
por outro motivo que não o que nos
impulsiona naturalmente, mas após
o ato, é necessário abandonar um
"chapéu" e vestir o outro.
É nesta busca de entendimento do
mundo do empresário que a relação
entre o artista e este mundo se
suaviza e flui. Esta relação não
é nova. Quem não ouviu falar dos
famosos mecenas das artes, da igreja
que comissionava pintores como Michelangelo,
da monarquia que patrocinava artistas
como Leonardo da Vinci e Goya ?
Mas como entendê-los e efetuar esta
aproximação ? Como mostrar as vantagens
para o empresário desta PARCERIA,
palavra esta tão atual ? Afinal,
a ponte que nos separa não está
para ser construída. Ela já existe,
embora esquecida. Basta melhorar
a sinalização do caminho. A maioria
dos colecionadores de arte são empresários
/ empresárias. O desafio é conseguir
mostrar ao empresário, que quando
visita um atelier ou galeria, ele
está descontraído e aproveitando-se
de seu momento de prazer e que este
bem estar pode ser estendido, com
muitos benefícios para ambos, para
além das paredes de um atelier /
galeria entrando nos domínios de
sua empresa.
Assim como nós, artistas, ganhamos
quando o empresário entra em nosso
mundo, temos muito a oferecer ao
entrar no mundo do empresário. Pode-se
aprender com as características
um do outro, nesta aproximação.
É com o artista que aprenderá a
força da criatividade bem direcionada,
a sensibilidade para o ambiente
em que vive e as transformações
que estão ocorrendo no seio da sociedade.
Com ele aprenderá a suavizar seu
mundo tão direto e tão duro. O empresário
aprenderá a ousar, a não esperar
o futuro e sim construí-lo com suas
próprias ações.
Já o artista aprenderá com o empresário
a ser prático e saber como vender
o seu produto. A arte pode ser elitista,
concordo, mas pensando friamente
- como um empresário faria - o que
criamos é um produto ! Devemos sentir
prazer tanto na produção da obra
como em sua comercialização. É um
desafio para nós, artistas.
Como eu disse antes, passamos a
aprender um outro idioma. Incorporarmos
ao nosso vocabulário, repleto de
aglutinantes, mídias, veladuras,
palavras como segmentação de mercado,
business plan, vantagem competitiva,
entre outras. Mas para entender
como a imagem do seu quadro será
usada e poder auxiliar o empresário,
estas palavras precisam ser incorporadas.
Assim o artista estará falando a
mesma " língua " do empresário,
se fazendo entender melhor.
Outro ponto importante na aventura
à este novo mundo é ouvir qual a
ansiedade do empresário - o porque
dele buscar a arte integrada à empresa.
Que mundo ele quer representar através
do meu pincel ? A primeira vez que
fui comissionada por uma grande
empresa, me senti um pouco contrariada
por ter o meu trabalho "direcionado".
Não é esta a atitude típica de um
artista ? Não se deixar influenciar?
Foi neste exato momento que comecei
a aprender que atender à expectativa
do outro muitas vezes revela no
artista uma capacidade criativa
até então adormecida. O que constatei
é que eu não estava me "curvando"
, afinal o empresário queria se
"ver " na imagem criada por mim.
Qual a empresa que não quer ver
o seu nome ligado a uma das mais
elevadas expressões humanas, a arte
? Que empresa não quer agregar valor
ao seu produto, que não quer associar
o seu nome à palavras como exclusividade
e refinamento ? Há as que não vem
vantagens nisso, sempre há, pois
cada uma escolhe seu próprio caminho,
mas aí está mais um desafio para
o artista: ser seletivo, descobrir
o seu público, o que tem esta visão
e se interessaria por esta parceria
artista / empresário, ciente de
que este plano pode conferir prestígio
para si e para a sua empresa. O
mais importante, entretanto, é saber
que o mundo só pode ser melhor quando
as pessoas trabalham em harmoniosa
PARCERIA.
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