edição 04 - maio/2002 - Carlos Rielli


O caso Salvattore

Arlindo Salvattore era meu amigo, um grande colecionador de arte além de meu cliente de restauração. Era um italiano do sul, bravo, rigoroso, exigente e normalmente estava com o humor abalado. Em um determinado dia no inverno de 87, em um leilão realizado por um outro amigo meu e também cliente, que aqui vou chamar de Paulo Pereira, Salvattore arrematou um quadro maravilhoso, animalista de um pintor chamado Cavalheiro Scognamiglio. Eu sempre fui bom na identificação do Scognamiglio, um pintor do séc. XIX, especialista em campo, animais e cotidiano.

Ele era um pintor nascido no sul da Itália e que teve uma grande produção artística.

Sei que Salvattore comprou o Scugnamiglio por um bom preço e enviou o quadro diretamente para eu realizar uma limpeza básica e aplicação de proteção antifungicida. Quando olhei para o quadro, comentei com Salvattore que o quadro era bom, bom até demais, nunca tinha visto algo tão bem feito por Scugnamilho, que era até surpreendente para a capacidade pictórica do pintor. Comecei a limpeza em uma tarde de quinta feira, tarde fria, chuvosa, e acho que foi isso que me motivou a ir limpando o quadro de modo que na sexta à tarde, ou seja, após 24 horas eu ainda estava debruçado sobre o quadro, extasiado com as cores, sombras e formas que apareciam.

Quando comecei a limpar em torno da assinatura, (em torno porque a assinatura propriamente não se deve limpar; ela sempre deve portar o sinal dos tempos a camada de sujeira de graxa e de vida, conservando aí todo o histórico e originalidade possível do quadro) notei que a parte de baixo da assinatura começou a soltar pigmentos diferentes dos originais do trabalho, e sob esses pigmentos descolados, apareceram vestígios de uma letra! Rezei para que não fosse o que eu estava pensando, mas era... a segunda letra apareceu, e a terceira.... indício forte, digo mais que isso, certeza que era uma segunda assinatura coberta, provavelmente a do pintor original o que matematicamente comprovava que o quadro tinha sido falsificado!!

Bem, o Salvattore, caso estivesse de bom humor e com o astral bem alto, iria apenas matar o Paulo Pereira por esse fato, ou seja, ter vendido um quadro falso a ele. Pensei bem, fiquei meio perdido, afinal os dois são meus amigos e bons clientes e resolvi o seguinte: iria ligar primeiramente para o Paulo, informando o fato, para que ele providenciasse o dinheiro para desfazer a venda e depois para o Salvattore, que era quem havia contratado meus serviços, avisando o ocorrido. O Paulo entrou em pânico, disse que iria correr para o doleiro, reunir o dinheiro e ir imediatamente para a casa do Salvattore. Nesse meio tempo, liguei pro Salvattore e dei a noticia... – Encontrei outra assinatura em teu quadro! O homem surtou, berrou, praguejou, esperneou e disse um rosário de palavrões tão grande que muitos eu nem sabia que existiam.

Fiquei preocupado, resolvi ir ao encontro dos dois, levei o quadro pois sabia que o negócio iria ser desfeito de uma forma agressiva, e achei que deveria ser da forma menos traumático possível. Provido de um algodão embebido em Dermatil Formamida, passei sobre o vestígio da assinatura para terminar de remover a camada de tinta que escondia a original, e assim que saiu todo o retoque, tive a maior surpresa de minha vida... apareceu a assinatura de Fillipo Palizzi, ninguém menos que “Fillipo Palizzi”! Os quadros desse pintor, valem pelo menos 10 vezes mais que os pintados por Scognamiglio, e diga-se de passagem, era um excelente Pallizi!

Peguei o quadro e fui correndo pra casa do Salvattore. Quando lá cheguei, já na porta de entrada, pude ouvir o Salvattore praguejando, xingando o Paulo Pereira de todos os nomes, onde estelionatário era o mais bonitinho dos nomes. Quando me deparei com os dois, Salvattore abraçava a pasta com os dólares, e o Paulo Pereira tentava contornar a situação pra não perder o cliente.

Foi quando fiz a revelação sobre a verdadeira autoria do quadro, e na mesma hora, Salvattore sem perder a entonação o timbre de voz e a ferocidade completou – “É como eu sempre digo, por mais que me tentem fazer de bobo, negócios por mim realizados são definitivos, não volto atráz por nada” e dizendo essas palavras, jogou a pasta de dinheiro para o Paulo Pereira, que por sua vez, com os olhos esbugalhados sobre o Pallizi, não queria de forma alguma aceitar o dinheiro de volta. A briga foi longa, durou um tempão, Salvattore explicando que ele tinha ficado bravo, mas nem tanto e que quadro comprado era fato consumado, e Paulo Pereira, dizendo que o negócio havia sido desfeito com devolução de dinheiro, identidade de artista incorreta e tudo mais. No fim, o quadro acabou ficando com o Salvattore; ainda bem, senão iria sobrar apenas para a humanidade!

O que aconteceu nesse fato, foi o seguinte: na época de guerra, da segunda, os alemães tinham relações de pintores que deveriam ser requisitados pelo Reich, então as pessoas cobriam as assinaturas originais, sobrescrevendo com a de pintores menores. Como a guerra durou muito tempo, a retirada da assinatura falsa foi relegada ao futuro, e assim até hoje existem muitos e muitos caso semelhantes. Também em caso de divisão de herança ou divórcio tal procedimento era (ou ainda é ?) adotado. Essa foi uma História real, acontecida em 1.987