edição 06 - março/2003 - Philip Hallawell


O ensino da Pintura

Quando trabalhei no Liceu de Artes e Ofícios, observei que a grande maioria das pessoas que procurava os cursos de arte queria se inscrever no curso de pintura. No entanto, poucos estavam preparados para fazer o curso ou entendiam que o exercício da pintura não é uma simples questão de aprender as técnicas.

Pintar não é como tocar um instrumento musical. Não é preciso aprender a compor músicas quando se aprende a tocar, basta aprender a técnica do instrumento. Nas artes visuais, no entanto, o artista é compositor e intérprete. Assemelha-se ao escritor. E assim como o escritor precisa aprender a linguagem escrita, antes de aprender as técnicas de escrever, também o pintor precisa aprender a linguagem visual, antes de aprender as técnicas de pintura.

A linguagem visual é chamada de "desenho", que é diferente do ato de desenhar, e é constituída dos elementos usados para criar uma imagem: composição, proporção, perspectiva, teoria da cor e luz e sombra, entre outros. Sem o conhecimento de como esses elementos funcionam e o seu domínio, não é possível criar uma imagem. Só dá para copiar uma imagem já existente. Voltando ao exemplo da literatura, é como tentar escrever um livro sem o conhecimento e domínio da gramática e sintaxe.

O aprendizado da linguagem visual envolve o ato de desenhar e a melhor maneira de obter domínio dela é através do desenho de observação. Mas é mais uma questão de obter conhecimento de como os elementos visuais funcionam. É simples, o que não quer dizer que é fácil. Exige prática e um certo número de exercícios. Mas não é preciso ser um exímio desenhista para poder exercer a pintura, embora certos tipos de expressões, especialmente aqueles que usam a representação realista, como a Sônia Menna Barreto, por exemplo, requerem maior domínio do que outros.

Na pintura representativa - de figuras, de objetos ou de uma paisagem, por exemplo - usa-se o desenho linear (só de linhas) para compor a imagem. Mas, para progredir além da composição, a pintura pode ser descrito como o desenvolvimento de planos de luz e de cor, então é preciso passar para o desenho de volume. Tentar pintar a partir de um desenho linear resulta em colorir entre as linhas, porque não há referências para construir o volume, a luz e a cor com os diversos planos da imagem.

Na pintura abstrata a composição, a construção dos planos e do ritmo, o conhecimento dos princípios de estrutura visual e, especialmente, do uso da cor são fundamentais. Portanto, o desenho está sempre presente em qualquer tipo de imagem, bi ou tridimensional, e mesmo nas imagens abstratas ou informais.

Não é preciso ter um grande domínio do desenho, antes de passar para a pintura, porque será exercido constantemente. Exercícios específicos, do desenho da figura humana, ou de volume, por exemplo, poderão ser feitos paralelamente, enquanto se aprende a dominar a técnica da pintura. Eu não sou a favor de longos cursos de desenho, nos quais os alunos só fazem exercícios. Acho que os exercícios devem ser feitos em função da expressão e a criatividade artística. Por essa mesma razão, acho que os cursos técnicos também devem ser curtos.

Aprender as técnicas básicas de pintura é simples também. Fundamentalmente é obter o conhecimento sobre os materiais adequados e os efeitos que estes podem proporcionar. O primeiro passo é aprender sobre os suportes da pintura e como prepará-los adequadamente.

Por exemplo, envolve aprender que tipos de pano servem para fazer uma tela e em que outros suportes pode-se pintar, como esticar o pano num chassis, como o chassis deve ser e como preparar o pano com o gesso.

O segundo passo é conhecer as tintas e suas propriedades e se conscientizar da importância de usar materiais de qualidade, que resistem à ação da luz. Depois é aprender a preparar um médium adequado para misturar as tintas, que proporcionará elasticidade, resistência e brilho à pintura.

Como disse, é simples. Mas o desafio da pintura não é a técnica e nem é o desenho, mas como usar essas ferramentas para expressar, de maneira particular, idéias, sentimentos e emoções. Isso é um processo longo que se aplica a qualquer técnica; óleo, acrílico, aquarela ou pastel. Aliás, é importante dizer que nem todas as pessoas se dão bem com a pintura. Por isso, recomendo que o aluno conheça diversas técnicas, para ver com qual se identifica melhor, antes de avançar para cursos mais adiantados.

O processo artístico geralmente começa com a representação e passa para a interpretação. Thomas Hardy, escritor inglês do século XIX e grande amigo do Joseph Turner, disse, "A tarefa do aluno é representar, do artista, interpretar."

Interpretar envolve saber o que se deseja interpretar. Este é o passo mais difícil no processo criativo. Uma vez que se sabe o que deseja fazer, descobrir como fica mais fácil, desde que se conheça o desenho e as técnicas. No início, todo artista sofre influências de outros e copia diversos aspectos, mas, aos poucos, seu estilo começa a se revelar naturalmente.

Para os adultos que começam a pintar é importante notar que todos já têm uma relação com imagens de outras pessoas, antes que começam a criar suas próprias. Então iniciam um curso já com conceitos definidos de pintura. Carregam nas suas mentes imagens de quadros de flores, de casarios e de figuras e há uma tendência de achar que devem pintar da mesma maneira, especialmente se admiram algum pintor. Desvencilhar-se desses conceitos e encontrar suas próprias idéias e imagens é um desafio grande. Crianças não têm o mesmo problema, geralmente, e é por isso que conseguem adentrar seu universo particular com mais facilidade e espontaneidade.

Finalmente, é preciso falar sobre o desenvolvimento de uma linguagem particular. A linguagem de um artista, no uso de uma determinada técnica, é diferente do seu estilo. No meu trabalho como artista, uso óleo, pastel, aquarela e nanquim. Não importa qual seja a técnica usada, meu estilo é o mesmo, tanto é que se pode reconhecer o meu trabalho nas diversas técnicas. No entanto, para cada técnica desenvolvi uma linguagem específica, que revela a minha maneira de usar o referido material para expressar as minhas idéias.

Para conseguir desenvolver uma linguagem, é preciso ter intimidade com a técnica e seus recursos. Isso só é obtido ao longo do tempo e como muita prática, o que proporciona domínio da técnica. Mas também é preciso ter uma temática.

Eu acho que qualquer pessoa tem o potencial de desenvolver a arte plenamente, desde que aprenda primeiro os fundamentos da linguagem visual e domine uma técnica com a qual se identifica. Com isso, quero dizer que qualquer pessoa pode expressar seu universo particular, de maneira pessoal, e obter prazer no processo.

Isso não quer dizer que todos podem ser artistas. Infelizmente, a maioria das pessoas não se prepara adequadamente para poder fazer isso e acabam se frustrando.

Pintar copiando outros quadros ou fotografias, ou trabalhando sobre um tela desenhada ("riscada") por outro, é uma maneira enganosamente fácil de se iniciar, que traz um prazer fugaz, o prazer de ter feito "um quadro". Na realidade, quando se pinta dessa maneira, está-se praticando somente o artesanato. No máximo, realiza-se se expressando com efeitos de cor ou pinceladas, mas isso não é a mesma coisa que criar. Mas, eventualmente, a pessoa se frustra porque não consegue criar suas próprias imagens.

Para resumir, se uma pessoa quer expressar seu mundo pessoal - se expressar - e criar através da pintura, é preciso, primeiro, aprender a dominar a linguagem visual, depois, as técnicas e, finalmente, ter boa orientação no uso dessas ferramentas para desenvolver as suas idéias criativamente. É um processo altamente enriquecedor, ao alcance de qualquer pessoa.