|
edição
08 - setembro/2003 - Carlos
Rielli
|
|
Nem pensar em pensar em errar!
Imaginem
vocês, pintar como a artista
faz, a atenção necessária,
o talento aflorando em cada toque,
a riqueza de detalhes....
Agora imaginem pegar uma obra dessas
e fazer um trabalho de restauração,
uma troca de vernizes! A dedicação
e o cuidado exigidos são
extenuantes uma vez que o crivo
e o padrão de qualidade exigido
pela artista demandavam conhecimentos
em restauros aliados a sensibilidade
de um pintor. É como se estivéssemos
com uma extensão da vida
dela nas mãos.
Só agora posso imaginar a
ansiedade e a preocupação
de um cirurgião quando tem
a vida de um paciente em suas mãos...
cada quadro da Sonia Menna Barreto
que chega em meu atelier, me parece
um desafio mítico, fico até
imaginando um dia cometer algum
tipo de erro, um minúsculo
respingo de verniz que seja... a
Sonia vai atacar! Ah vai.... aposto
que ataca! (risos)
Claro que essa dimensão exagerada
é uma brincadeira, mas não
fica tão distante assim da
realidade pois, com o mesmo esmero
que a Sonia elabora sua arte, ela
o mantém com a obra já
comercializada. Muito difícil
isso, pois nos dias de hoje o que
importa para quase todos é
o valor financeiro e não
a obra em sí, como seguramente
é o caso em questão.
Comecei a trabalhar no quadro "Os
Doze Erros", datado de 1.995,
fazendo uma análise técnica
do sinistro e do material utilizado,
para poder começar o trabalho
com toda a segurança. O resultado
da perícia constatou que
a capa de verniz original do quadro
desgastou-se, (fato aliás
recorrente nestes casos) permitindo
que a ação do tempo
incidisse diretamente sobre a pintura.
Isto acabou criando (em algumas
áreas de pigmentação
mais escura) micro-fissuras, que
com o tempo tendem a evoluir para
um craquelamento mais grave.
Por se tratar de uma pintura recente,
com menos de 10 anos, a única
técnica realmente segura
para a retirada dos resquícios
de vernizes anteriores é
a remoção mecânica.
Tal técnica, consiste no
uso da ponta seca de bisturi, quebrando
e separando pequenos elementos da
capa de proteção,
além da retirada das colônias
de fungo que, fatalmente existem
em todos os quadros com mais de
5 anos de elaboração.
Nesta etapa do trabalho, o principal
cuidado a ser tomado é a
pressão do bisturi sobre
a tinta para a quebra do verniz
pois, não estando a mesma
em seu estado totalmente rígido,
pode facilmente ficar marcada com
a ação.
A delicadeza e a importância
de tal trabalho exigiu minha atenção
pessoal, pois qualquer engano poderia
ser desastroso. O restauro tinha
que ser perfeito, a tela deveria
ficar como após a última
pincelada da artista.
Depois que todos os resquícios
de vernizes, graxa, fungos, poluição
e demais sedimentos foram retirados
da capa pictórica, com uma
"boneca" (espécie
de trouxinha de pano envolto em
meia fina de mulher), apliquei um
composto desengraxante.
Após ação deste
produto usei um segundo composto,
desta vez uma mistura de ceras nobres
com seivas vegetais, que visam preencher
as fissuras de maneira que as mesmas
não mais se expandam e, dessa
maneira, o processo de craquelamento
cesse.
Concluído tal procedimento,
apliquei uma camada de verniz selante,
amorfo, também com base composta
de ceras, breu e damar, que tem
como qualificação
o crédito de ser elástico,
a ponto de poder se mover junto
com a tinta em obediências
ás diferenças de temperatura
atmosférica enfrentada no
dia a dia da cidade.
Os dois últimos vernizes
usados foram os protetores. Tais
vernizes neutros, alem de serem
mais compactos e resistentes que
o anterior, realçam o brilho
original concedido pela artista
ao quadro, elevando assim, a qualidade
pictórica e o efeito visual
da pintura.
Foi dessa maneira, completamente
restaurado e revigorado, que "Os
Doze Erros" mais uma vez voltou
a brilhar pela sua própria
luz!
Que venha o próximo desafio...
|