CARLOS RIELLI JR

Restauração: mistérios, lendas e tradições


"Restaurar é a arte de recompor um original!" Com essa definição, vamos encarar o restauro como uma ciência exata que cuida de preservar e recompor aquilo que já foi criado. É muito grande a diferença entre restaurar e reformar, são coisas completamente distintas, pois o restauro preserva na totalidade as características atribuídas à obra pelo autor e, reforma, atribui uma nova "alma" a obra de arte.

A origem do restauro, vem do tempo dos homens das cavernas, onde o desejo de preservar a criação de outra pessoa, logrou no desenvolvimento de técnicas especiais para tal fim. Na idade média, até tempos mais recentes, os produtos usados, eram os fornecidos pela natureza, usava-se bílis de boi (emoliente de pigmento), polvilho azedo (contra fungos) etc. Hoje em dia, usam-se produtos mais atuais, área onde me dedico bastante e de uma feroz combatividade frente aos tradicionalistas. Por ex:, uso antibiótico onde se usava de polvilho azedo, e silicone como substituído à bílis bovina.

O restaurador, deve obedecer a certas regras como a respeitar a reversibilidade do trabalho por ele feito, pois se assim não fosse, um quadro de 500 anos, seria uma sobreposição de vários restauros, deixando o original, escondido! O restauro bem feito, e realizado por um profissional gabaritado em Fine Art´s, nunca irá desvalorizar ou depreciar a obra, claro que dentro de um critério onde o sinistro não envolva na perda total de características principais da obra, como por exemplo o rosto do personagem principal, fato este que força o restaurador a dar seqüência ao "criar" para poder manter ao menos a estética da obra, uma vez que o valor comercial e artístico, se foi!

Existem três tipos de restauro, o arqueológico, ou museuológico, onde nada é acrescentado a aparência final da obra, visando preservar sem maquiagem a obra como ela está no dia da conservação ou o que restou dela. O tratégio, uma técnica que retoca o original através de micro-bastões multicoloridos, proporcionando ao expectador situado a uma certa distancia, uma situação de plenitude da obra original, sem danos. Apenas chegando perto é que se nota os locais de restauro.

E por fim, a mais usada, o ilusionismo, que é o tipo de restauro reconstrutor, que retoca a obra nos locais de sinistro, conforme era na original, mas sem contanto tocar fisicamente no trabalho do artista.

É simples como isso é possível... quando um quadro aparece com um furo, as providências tomadas pelo restaurador são:
_a limpeza
_a desinfecção da obra
_a reconstituição da base (ex: remendo na tela por trás)
_a nivelação através de massa mineral
_o isolamento dessas áreas afetadas
_e a aplicação de camadas múltiplas de verniz

Só então, é que o retoque terá início, sendo que a tinta usada pelo restaurador, não "toca" nem se agrega á tinta utilizada pelo criador! Existem o material isolante, e as camadas de vernizes entre elas.

Quando o próximo restaurador for trabalhar com a mesma obra, um simples removedor de vernizes (que não afeta a tinta) irá retirar todo o verniz, e por conseguinte qualquer pigmento que se encontre sobre este!

Todos materiais, colas, ceras, solventes, tintas, massas etc. utilizadas pelo restaurador em um trabalho, obedecem necessariamente à condição de reversibilidade, ou seja, podem ser removidas sem afetar o original.

Dentre danos mais freqüentes em uma obra de arte, vamos usar a pintura como exemplo, estão em primeiro lugar as condições atmosféricas, a graxa produzida pela poluição das cidades (antigamente originária de velas, fogões a lenha etc), aos maus tratos que a obra passa através de sua "vida", e acreditem, pela quebra do suporte ou do prego que segura a tela na parede!

Para a exposição correta de uma obra de arte, deve-se evitar ao máximo, a incidência das intempéries sobre tal obra. O sol direto, umidade, calor excessivo, choques térmicos, desidratação, são fatores que precisam ser observados. Os locais de exposição de tal obra, devem ser refrigerados, livres de umidade e parasitas, e longe das correntes de ar!

Quanto à conservação simples, é necessário e recomendado a passagem de um espanador de plumas uma vez por semana. Apenas e tão só isso!!!!

Citarei algumas das crendices e costumes erroneamente usados na limpeza e conservação de uma obra de arte:
- Passar batatas ou cebola sobre a tela.
Efeito imediato- hidratação da capa pictórica realce de brilho e cores.
Efeito secundário- tão logo esteja seco a proteína ou o amido desses vegetais, será iniciado um processo de desenvolvimento de colônias de fungo nos resíduos destes o que acarretará uma opacidade sobre a pintura e a curto espaço de tempo um grave sinistro sobre a capa pictórica.

- Passar óleos, lustra móveis, terebintina etc.
Efeito imediato- hidratação da capa pictórica realce de brilho e cores.
Efeito secundário- Assim como o exemplo anterior, o efeito de desidratação será semelhante, apenas levando um pouco mais de tempo para tal fato acontecer.

- Aplicar camadas de verniz antes de limpar o quadro
Efeito imediato- hidratação da capa pictórica realce de brilho e cores.
Efeito secundário- Nesse caso, será criado um sanduíche de matérias orgânicas, graxosos, e proteinícos entre as camadas de vernizes, o que virá a prejudicar a qualidade estética e artística da obra.

- Passar pano ou flanela diariamente sobre uma obra de arte.
Apenas um exemplo poderá servir como alerta. Imaginem que o poder de abrasão de uma flanela, seja mínimo, digamos valor 0,5 , e de uma lixa seja valor 500. Uma pequena passada de flanela na obra, passada por 50 anos contínuos, todos os dias faria que o efeito do desgaste fosse semelhante a 10 minutos de lixa! Já pensou o estrago? Pois é o que costuma acontecer.

- Colocar esparadrapo, adesivos ou fita gomada na parte de trás do quadro.
Costuma-se usar tal artifício para arremates ou mesmo para a reparação amadora de algum furo ou dano na tela. Efeito secundário - A "goma", não seca! Ficando ali, um nicho perfeito para o desenvolvimento de fungos, bactérias e insetos.


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