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O
primeiro contato
Eu tinha acabado de terminar meus
estudo de especialização
de restauro de pintura de cavalete
em Verona, no Palazzo Giorfinno,
isso em 1.978, e estava louco ou
melhor alucinado para conseguir
algum tipo de estágio em
algum museu ou galeria. Mandei meu
curriculum para todos e para tudo
que se movessem em direção
à arte, sabendo que seria
praticamente impossível uma
resposta positiva, visto minha falta
de experiência como restaurador
titular.
Passaram-se
algumas semanas e uma correspondência
chegou... O timbre era de uma instituição
de Bruges, Bélgica, e a carta
minha presença para início
de trabalho de restauração
em uma semana! Incrédulo,
mais do que depressa embarquei para
Bruges, e logo já estava
instalado naquela cidade a espera
de minha nova função...
provavelmente auxiliar de algum
bom restaurador. Era o que eu mais
queria, seria o máximo onde
eu poderia chegar naquela fase de
minha carreira.
Bem, me apresentei ao trabalho na
data marcada e fui encaminhado ao
atelier principal - que por sinal
encontrava-se vazio - e comecei
a me familiarizar com os equipamentos
e materiais do local, um atelier
completo, super moderno!!
Qual
não foi minha surpresa, quando
depois de alguns minutos, entra
pela porta do atelier, o curador
do museu, com um quadro nas mãos
e dizendo...- Este quadro precisa
de um restauro urgente! Corre risco
de deterioração iminente!
Faça...disse ele! Gelei.....
Quando olhei para o quadro, um óleo
de médios 40 X 50 cm, PETRIFIQUEI
!!!!......era um original de Salvador
Dali! Isso mesmo...um original...óleo...,
típico, surreal e maravilhoso,
mas em um adiantado estado de descolamento
da capa pictórica.
Meu Deus... era muito pra mim, eu
tremia apenas de olhar para o quadro,
imagine restaurá-lo! Lembro
que fiquei por três dias apenas
observando a tela, analisando, medindo,
calculando o tamanho do sinistro
e qual técnica eu iria usar.
Nem
preciso falar que meu pesadelo de
todas as noites era o quadro de
Dali e era nisso que eu pensava
desde o café da manhã
até eu deitar! O restauro
virou uma total obsessão
para mim, eu estava transtornado,
morrendo de medo de tanta responsabilidade!
Enfim.... tinha que ser feito! Foi
pra isso que estudei e era isso
que eu vinha fazendo desde praticamente
minha infância, quando aprendi
as técnicas de restauro com
minha mãe, a artista plástica
Ritowskaia. Finalmente... materiais
selecionados, técnica definida
- refixação através
de composto a base de mistura de
ceras e emolientes - passei ao processo
de restauração. Por
incrível que pareça,
assim que comecei a manusear o quadro,
este se tornou tão familiar
e simples pra mim que foi como se
eu estivesse restaurando um quadro
velho conhecido, meu camarada!
Os
pesadelos deram lugar a bons sonhos,
o medo deu lugar a uma grande confiança,
e o Dali, em alguns dias, voltou
ao seu lugar de destaque na parede
do museu, com toda a pompa, autenticidade
e perfeição como no
dia em que foi pintado!
Esse, foi meu primeiro contato com
Dali, e claro o mais traumatizante!
Mas também inesquecivelmente,
o melhor!
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