CARLOS RIELLI JR

O primeiro contato

Eu tinha acabado de terminar meus estudo de especialização de restauro de pintura de cavalete em Verona, no Palazzo Giorfinno, isso em 1.978, e estava louco ou melhor alucinado para conseguir algum tipo de estágio em algum museu ou galeria. Mandei meu curriculum para todos e para tudo que se movessem em direção à arte, sabendo que seria praticamente impossível uma resposta positiva, visto minha falta de experiência como restaurador titular.

Passaram-se algumas semanas e uma correspondência chegou... O timbre era de uma instituição de Bruges, Bélgica, e a carta minha presença para início de trabalho de restauração em uma semana! Incrédulo, mais do que depressa embarquei para Bruges, e logo já estava instalado naquela cidade a espera de minha nova função... provavelmente auxiliar de algum bom restaurador. Era o que eu mais queria, seria o máximo onde eu poderia chegar naquela fase de minha carreira.

Bem, me apresentei ao trabalho na data marcada e fui encaminhado ao atelier principal - que por sinal encontrava-se vazio - e comecei a me familiarizar com os equipamentos e materiais do local, um atelier completo, super moderno!!

Qual não foi minha surpresa, quando depois de alguns minutos, entra pela porta do atelier, o curador do museu, com um quadro nas mãos e dizendo...- Este quadro precisa de um restauro urgente! Corre risco de deterioração iminente! Faça...disse ele! Gelei..... Quando olhei para o quadro, um óleo de médios 40 X 50 cm, PETRIFIQUEI !!!!......era um original de Salvador Dali! Isso mesmo...um original...óleo..., típico, surreal e maravilhoso, mas em um adiantado estado de descolamento da capa pictórica.

Meu Deus... era muito pra mim, eu tremia apenas de olhar para o quadro, imagine restaurá-lo! Lembro que fiquei por três dias apenas observando a tela, analisando, medindo, calculando o tamanho do sinistro e qual técnica eu iria usar.

Nem preciso falar que meu pesadelo de todas as noites era o quadro de Dali e era nisso que eu pensava desde o café da manhã até eu deitar! O restauro virou uma total obsessão para mim, eu estava transtornado, morrendo de medo de tanta responsabilidade!

Enfim.... tinha que ser feito! Foi pra isso que estudei e era isso que eu vinha fazendo desde praticamente minha infância, quando aprendi as técnicas de restauro com minha mãe, a artista plástica Ritowskaia. Finalmente... materiais selecionados, técnica definida - refixação através de composto a base de mistura de ceras e emolientes - passei ao processo de restauração. Por incrível que pareça, assim que comecei a manusear o quadro, este se tornou tão familiar e simples pra mim que foi como se eu estivesse restaurando um quadro velho conhecido, meu camarada!

Os pesadelos deram lugar a bons sonhos, o medo deu lugar a uma grande confiança, e o Dali, em alguns dias, voltou ao seu lugar de destaque na parede do museu, com toda a pompa, autenticidade e perfeição como no dia em que foi pintado!

Esse, foi meu primeiro contato com Dali, e claro o mais traumatizante! Mas também inesquecivelmente, o melhor!

 


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